31.12.12

2013



Balanço pessoal de 2012: esse ano tive várias realizações pessoais, conheci boas pessoas, mudei de curso (isso só o futuro dirá se será bom ou não) e tomei algumas decisões importantes para a minha vida. Claro, também foi um ano de luta e sofrimento, mas muito melhor do que 2011, obviamente (obviamente pra quem me conhece).  Foi nesse ano que descobri que era mais forte do que pensava e superei alguns grandes obstáculos, sempre com muita ajuda dos amigos e da família. No final, o saldo ficou bem positivo.
Que 2013 venha com novos desafios e que consigamos força para superar todos e principalmente, aprender com eles. Que tenhamos clareza de nossos objetivos, ideias, caminhos a ser percorridos... Que possamos contar sempre com o apoio uns dos outros e que mantenhamos nossos fiéis amigos, estando sempre juntos. Desejo um ótimo 2013, bem como todos os outros anos, para todos aqueles que estivaram comigo nessa luta, me apoiando e me dando coragem de seguir em frente. Aliás, que em 2013 não nos falte o que talvez seja o principal: coragem, para ultrapassar os obstáculos e seguir adiante, juntos. Abraços.

5.12.12

Facebook

         Pessoal, agora o blog tem facebook, é onde posto a maioria dos desenhos: http://facebook.com/DeliriosDoSubsolo
          Curtam! Abraço!

16.11.12

Desgrandeza


      Eu não sou um grande artista. Eu não sou um grande intelectual. Não alcancei a grandeza em nada, por mais que a tenha aspirado. Tenho um passado infame e um presente mais infame ainda. Se é que o “não ser” possa ser considerado infame. Neste estado de não ser só havia um resultado: a falha. E sobre isso sabia que tinha de fazer algo. Meus dados estavam viciados, precisava me livrar deles, jogar novos dados. Jogar novos jogos, em que a banca não vença. Lançar-me a novos desafios. 
       Na verdade, não jogava com dados viciados, simplesmente não jogava. Permanecia no repouso extremo. E a minha vontade condizia com esse repouso, era nula. Nula em todos os sentidos. Não fazia nada de produtivo. Mais do que isso, não fazia nada de prazeroso. E pouco a pouco me esquecia quase por completo de mim mesmo. Sabia que algo precisava ser mudado, mas eu agia sempre da mesma forma e à noite precisava de remédios para dormir.
       E acordava durante a madrugada sentindo um vazio insuportável, entretanto, ao mesmo tempo, justificável. Justificável pois realmente não havia nada ali, os dados não rolavam mais. Eu precisava de um novo impulso, uma nova aspiração, um novo foco. Cheguei a conclusão de que só eu poderia fazer algo por mim mesmo. Chegar a essa conclusão já era um grande passo, mas estava longe de ser o mínimo necessário. 

25.10.12

Reinício II

          Eu gostava de caminhar sozinho. Sentir o vento no rosto e o brilho da lua. Eu gostava de sentar sozinho e ouvir músicas melancólicas, porque isso me fazia entender como minha vida é vazia. Cara, na vida acontece cada coisa bizarra, isso me faz pensar. Me faz pensar... que vida de merda. Eu deveria estar construindo algo, fazendo dinheiro. Algo tinha que acontecer na minha vida, era necessário, o que estava errado? O que o destino reserva para mim, o que há no fim da jornada? Se é que há algo.
         A vida é sempre muito difícil. Muitas coisas pra fazer, muitos remédios, muitas pessoas para conviver. Por outro lado, existe o tédio, as doenças sem cura e ainda, a solidão. E tudo isso faz a vida ser muito difícil. Mas hoje em especial, ela era muito difícil.
         Porque sentia uma angústia terrível, insuportável. Precisava escrever e as palavras não vinham. E meus dedos percorriam o teclado temerosamente, quase sem tocá-lo. Minhas mãos tremiam. Não podia escrever. Entretanto, eu tinha um plano.

16.6.12

Delírios do Subsolo III


            Não aguento mais. Por favor, me dê algo que me faça dormir. Preciso sonhar. Penso. Tenso. Lenço. Percebem como é fácil rimar? Por isso as rimas são assim, tão frágeis. Mas, a questão não é essa. A questão é que existo. Apenas isso. Existo por existir? Existo como todas as outras coisas existem.  Há algo de maravilhoso na existência? Se há, ignoro.
            Estou há dias invertendo meus horários de sono: durmo de dia, fico acordado durante toda a noite. É algo que causa danos ao organismo, chega a ser quase insuportável. Apesar de tudo me sinto bem. A noite tem algo de inspirador. Talvez seja o frio, talvez seja o céu com estrelas. Então, mercúrio está em câncer. Que significa isso? Não sei. Não entendo nada de astrologia. Só sei que sou canceriano, nascido no mesmo dia que Franz Kafka. Gosto de ter algo que me une ao meu mestre em literatura. Como canceriano, segundo as minhas poucas leituras sobre astrologia, sou sonhador, sensível e bastante ligado à família, tendo um forte instinto gregário.
            Isso não muda o fato de existir. Existo contra a minha vontade. Minha vontade mesmo era ser energia, que está presente em tudo e em nada ao mesmo tempo. Mas, não posso pensar nisso, prometi a mim mesmo nunca mais fraquejar... como naquela noite. Não irei fraquejar. Há algo de maravilhoso em existir? Se há, é na existência dos outros, na minha não. Tenho quase duas décadas de vida, sem ter realizado absolutamente nada de importante. O que é esse vazio? Por que me sinto assim? Preciso dormir.
           Há certa volúpia na insônia. Um prazer imoral e perverso, que causa danos à memória e ao raciocínio. Pois, há prazer no sofrimento. Principalmente, no sofrimento de existir. Esse vazio, esse incompleto, é tão destrutivo, gera uma busca insana por algo que nem se sabe o que é, uma realização, um grande feito, entretanto, gera uma volúpia. A volúpia de existir e não fazer sentido, e a volúpia de buscar ser e a volúpia de estar tão incompleto a ponto de...
           Sinto dor nos olhos. Alguém me dê um remédio para dormir.

10.6.12

Estrangeiro I


                  No dia em que ultrapassei a última fronteira e alcancei esta terra, sabia que tudo aqui estava errado, sabia que deveria mudar tudo. Entretanto, nunca senti que tinha força suficiente para isso. Falhar não podia estar em meus planos. Mas, era meu destino falhar, como falhei em tudo que fiz.
                   Era uma noite de chuva. Sentia, além de muitas dores, medo e ansiedade. Desci do trem e abri logo o guarda-chuva, que quase não me protegia devido ao vento. Havia um bar próximo à estação, me instalei por lá enquanto a chuva não cessava. Tenho muito medo da chuva, creio que seja aquilo o qual me dá mais medo no mundo. O lugar era pequeno e poucas pessoas estavam ali. Eram homens adultos, não chegavam a ser idosos, de início me encaravam com curiosidade, mas logo voltaram a conversar e beber. A idéia de que os cidadãos não se importavam com meu sofrimento me dava um estranho alívio. É ironicamente maravilhoso saber o quanto sou insignificante e crer que ninguém sente piedade por mim, pois traz a linda ilusão de que sobrevivo sozinho, sou independente e não necessito de ninguém.
                 Fazia muito frio, coloquei minha mochila, meu guarda chuva e minha pasta no chão, sentei junto ao balcão e pedi um café com leite bem quente. O funcionário preparava o café, enquanto isso, conversava comigo. Ele tinha bigode e cabelos loiros compridos, que já se tornavam brancos, era alto, tinha lábios e nariz finos, além de marcas da idade, já devia ter seus cinqüenta anos, vestia uma camisa xadrez vermelha:
                  - O senhor é estrangeiro, de certo, não?
                  - Sim, acabei de chegar, viajo há dias.
                  - É... Reconheço estrangeiros de longe. Atendo muitos como o senhor, mas poucos tão jovens. Parece vir de longe mesmo... Aquele ali – disse apontando para um senhor de barba escura, sentado em uma mesa - é estrangeiro também, mas não fala nossa língua. O que te trouxe para esse lugar?
                  “Ainda não sei ao certo”, respondi mentalmente. Morrerei sem saber.
                  - Pretendo mudar de vida. – respondi enquanto olhava para o copo e adoçava o café, aproveitando a ocupação para não fitá-lo nos olhos, temendo que percebesse a insegurança de minha resposta.
                   - Ah! Também morará nesse lugar medíocre. Quando cheguei aqui, era como o senhor, com muitos sonhos. Aposto que não percebeu que sou estrangeiro? – consenti com a cabeça apenas e tomei um gole de café – Pois é, eu era músico, perdi minha mulher e vim parar nesse lugar. Hoje sou um deles, um desses imbecis nascidos aqui. Sim, cheguei esperançoso de mudar o mundo e aqui estou, atrás desse balcão. Mas não reclamo, vivo bem, apesar da obrigação de conviver com essas pessoas... Só sinto falta de minha esposa... e do meu violino... Com certeza, o senhor tem sonhos?
                  - Todos temos, todos temos. Procurarei um emprego, com algum dinheiro posso me aprimorar na arte e passar a viver somente dela. Não sou um gênio, mas tenho alguma habilidade artística e intelectual. Estudei filosofia posso dar aulas, ou mesmo aulas de desenho...
                 Fui interrompido pela risada alta do atendente. A chuva estava cessando. Continuou o diálogo:
                - Então o senhor tem muitos sonhos, mas nenhum plano! – disse rindo – Estudou filosofia e arte, ainda por cima? Certamente será solitário nesse lugar... – ele continuou, entretanto, mudou seu tom de voz, carregou-o de uma raiva ferina – Esse lugar... Afunda a cada dia no ódio e na ignorância... E o senhor... Vejo isso... O senhor tem uma mente elevada, é um homem diferente... Não haverá lugar no mundo em que seremos felizes e completos... Eu e você... Também não haverá pessoas aqui com a qual possamos conviver agradavelmente... Com exceção dos forasteiros, pena que são tão poucos...
                 Dizia tudo aquilo como se estivesse esperando por anos para dizer e jamais encontrara alguém para ouvir-lo. Seu desabafo me trouxe muitas reflexões. Entretanto, achei melhor interrompê-lo, pois senti que ele ganhava, através de seu discurso, antipatia dos outros ouvintes não inclusos na conversa, além disso, a chuva estava cessando e eu terminara o café:
                - Pode me indicar uma pensão?
                - Ah, claro que sim, meu jovem... – pegou um pedaço de papel e pôs-se a anotar um endereço e um telefone – O café está pago. Não posso cobrar nada do senhor – completou rindo novamente – Me chame Balaão. Posso perguntar seu nome?
                 - L. Muito obrigado. Boa noite.
                 - Boa noite L. Volte sempre... E não deixe que este lugar destrua sua mente... Como destruiu a minha...
                  Carreguei minhas coisas e fui saindo. Balaão me chamou quando estava perto da porta:
                  - Não confie em ninguém L. Todos aqui fingem. O senhor está sozinho, sempre.
              

5.6.12

           Pensando bem, vivo achando que não realizei nada na vida. Acho que valeu a pena. Valeu a pena pelas pessoas que conheci, pelos amigos que fiz. O que seria de mim sem eles? Nada.

29.5.12

Coisas que devo fazer para ser um pouco mais feliz:


Fiz a lista o ano passado para 2012. Cumpri uma parte já, mas há ainda uma boa parte a ser cumprida. Queria pedir desculpas pelos post ruins, prometo que logo colocarei um bom texto para vocês lerem.

1. Ouvir menos músicas melancólicas
2. Ser menos tímido
3. Cuidar de mim mesmo
4. Acreditar em mim mesmo
5. Acreditar um pouco mais nos outros
6. Dormir melhor
7. Comer melhor
8. Pensar positivo
9. Perder menos tempo com Facebook, MSN e jogos
10.Reduzir a culpa (me perdoar)
11. Ver o melhor de mim mesmo
12. Ter mais amor próprio
13. Ter (muito) mais coragem
14. Ser menos rancoroso
15. Ser mais sincero
16. Ter novos amigos
17. Ter amigos verdadeiros
18. Fazer mais besteiras
19. Exigir menos de mim mesmo e dos outros
20. Enxergar o melhor das pessoas (inclusive eu mesmo)
21. Parar de me esconder
22. Ser mais espontâneo
23. Ser mais afetuoso
24. Ser mais tolerante
25. Ouvir mais as pessoas
26. Conversar mais com as pessoas
27. Ser mais prático, menos teórico (agir mais)
28. Não sonhar tanto
29. Fazer exercícios físicos
30. Guardar menos os meus erros e dos outros
31. Enfrentar os problemas
32. Persistir mais em projetos
33. Não estar sempre certo
34. Expressar sentimentos
35. Fingir menos
36. Reclamar menos
37. Enfrentar as pessoas, quando necessário
38. Ler mais o que gosto
39. Fazer mais o que gosto
40. Expressar-me melhor (escrever, falar e desenhar)
41. Importar-me com quem se importa comigo
42. Ser menos orgulhoso (admitir meus erros)
43. Evitar discussões desnecessárias
44. Ser mais maduro
45. Ganhar dinheiro com o que gosto
46. Aprender a tocar um instrumento
47. Ser menos egocêntrico
48. Me arriscar mais
49. Não ter medo de ser feliz
50. Amar
51. Cumprir pelo menos uma parte dessa lista esse ano ainda
52. Ser mais atento
53. Exercitar a memória
54. Exercitar a criatividade

18.5.12

Vozes IV


           Loucos, todos loucos. Mas eu não, eu não. Estou aqui nesse lugar sujo porque falam comigo e eu respondo. Há crime nisso? Há? Não! Isso só prova minha sanidade! A culpa não é minha por eles serem tão tagarelas.
           - José, traz água pra mim, traz leite, traz vinho.
           - Cala a boca, inútil, ratos não tomam vinho!
            Por que perder tempo falando com esses doidos? Não podem me entender. São inferiores. Se tivessem higiene ao menos, seriam dignos de uma conversa. Falei... falei que aqui não era lugar para mim, o doutor me ignorou, me chamou de doente e me deixou aqui. Se eu sou doente o doutor que me cure, é o trabalho dele.
           - José, tô sujo, tô feio, tô fedido, tô triste.
           - ô seu imbecil, você é assim, vai morrer assim!
           O doutor me chamou de louco. A Madona me chamou de louco. O presidente me chamou de louco. Tá bem, sou louco. E quem não é? E tem coisa mais absurda que a medicina, a música, a política? E nós não somos iguais por sermos todos loucos?
           - José, acende a fogueira, tá escuro e tô com frio!
           - Não tem lenha aqui, você não trouxe! Agora não amola!
           Se esses energúmenos desgrudassem de mim, ou parassem de falar, eu seria gênio, não doido. Seria mais doutor do que o doutor. É, eu sou gênio. Minha genialidade não pode ficar nesse cubículo sujo com esses encostos. Quando eu sair desse lugar vou mandar o doutor, a Madona e o presidente para um hospital, lá na Amazônia, aí eles vão ver só...
            - José, tome seu remedinho, tome. Tá mais calminho? Você só sai do isolamento quando se acalmar. É bom que seja logo, se não quiser ficar a vida toda nesse escuro. Já tá aí uma semana e não sossega... Olha! Tá todo mijado! Vem, vamo andando, que eu tenho muito o que fazer.

Vozes III

                Vozes III
                (baseado nos poemas de Charles Baudelaire)

                Sexta-feira à noite
                Crise existencial

                Quando você se tornou tão chato?
                E a sua vida tão sem graça?
                E o mundo tão desinteressante
               
                Ridículo é o seu melodrama
                As pessoas te observam, é ridículo!
                Recolhe os frutos da tua fraqueza de caráter
                Que são amargos, mas é obrigatório engolí-los

                Quando as cores se transformaram em cinzas?
                E os mares se transformaram em olhos?
                E o spleen se transformou em vida?
            
                O mundo te pede mais coragem,
                E tu? Fazes o oposto,

                Afunda em tua covardia!
               Vil és como homem!

                Quando das curvas do céu voaram anjos,
                com espadas em punho
                prontos a atacar o demônio que há em ti? 
                
                Invocaste para ti o pior dos demônios
                E para ele ergueste um altar
                Numa encruzilhada, como para Hécate
                Tédio é o nome dele
                Um demônio que se torna hábito
                E todos os dias é cultivado
            

17.5.12

Que poema de Fernando Pessoa é você?


http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/testes/que-poema-de-fernando-pessoa-e-voce.shtml


Resultado
O poeta é um fingidor, Fernando Pessoa (ele mesmo)
“O poeta é um fingidor,
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.”
( “Autopsicografia”; 1930)

Fernando Pessoa dizia de si próprio que era “... um outro, enquanto poeta, outro que usava seu nome, mas não era ele”. Aos amigos, quando perguntavam sobre a vasta (e diversa) produção poética, respondia “... eu não sou ninguém e sou todos eles”. Profundamente ligado à mãe e à pátria portuguesa, Fernando Pessoa não é um tipo melancólico, mas sim romântico. Consciente da musicalidade das palavras, chama os poemas assinados como Fernando Pessoa de “Cancioneiro”. Poeta de dimensão mística, o único livro que publicou em vida recebeu o nome de “Mensagem”, uma tentativa de narrar a História de Portugal a partir do lado oculto.

13.5.12

Willian

              Trecho da história de Willian, ainda inacabada.


             Tudo corria bem, apesar dos últimos acontecimentos. A casa nova era espaçosa e confortável. Willian estava se tratando e logo estaria bem. O pai esperava por isso. Os amigos também. A mãe havia morrido a pouco mais de um ano, foi quando Willian passou a viver com o pai. O pai, que já havia se separado da mãe há uns anos, era sociólogo, mas se dedicava a administrar os negócios da família sozinho, além de dar aulas. Não era o tipo de homem que se diga carinhoso, mas gostava de conversar com Willian, principalmente sobre suas pesquisas. Possuía uma namorada, mas tinha medo de se casar novamente.
             Willian se sentia bastante solitário. Sua doença o fez desconfiar da amizade de todos. Acreditava que as pessoas só se aproximavam dele por pura pena. Era sempre tomado por um sonho enigmático: um homem o erguia e o encostava contra a parede, enquanto uma meia dúzia apontava fuzis para ele e disparavam. Entretanto, os tiros não atingiam Willian, apesar de mirarem contra ele. Durante, todo o sonho, havia uma plateia que batia palmas e ria. Flores nasciam de dentro da parede e o envolviam até quase sufoca-lo, nesse momento ele acordava, suado e com falta de ar. Havia trancado o semestre na faculdade de odontologia, de modo há passar mais tempo com seu pai e facilitar o tratamento. Sentia medo de voltar. Entretanto, esse era o momento em que mais precisaria de coragem.
              A relação com o pai era difícil. Quando conversavam era sempre sobre o mesmo assunto: o trabalho do pai. Sentia falta da mãe. Certa vez o pai lhe disse:
             - Sabe meu pequeno Willian, um dia você irá cair. E eu o erguerei nos meus braços. Um dia faltará ar nos seus pulmões, e eu, retirarei o gás dos meus e colocarei nos seus. Um dia lhe faltarão músculos para carregar o peso da existência e eu cederei a você cada célula dos meus.  E nesse dia você e eu, principalmente, saberemos que as minhas forças não são assim tão limitadas e confiaremos no valor dessas forças e assim estaremos unidos para sempre e como nunca. Acredita?
              “Não acredito”, pensou Willian. Temia o pai. Temia não ter o sucesso do pai na carreira e ter o insucesso do pai no campo dos relacionamentos. Sentia muito de medo de estar só. Mas apesar de tudo, enfrentava sua doença de cabeça erguida. Logo estaria bom. E voltaria a confiar nos amigos e a conviver alegremente com o pai. E logo cresceria e administraria os negócios da família.

12.5.12

Eu

               Houve uma época na minha vida em que não sabia quem era. Não lembrava coisas relativas à personalidade. Coisas como "sou tímido" ou "sou alegre". Também não podia contar com minhas memórias. Nesse momento tinha uma impressão de mim mesmo guiada, principalmente, por uma baixa auto-estima. Por isso fiz uma experiência, perguntei para outras pessoas, que me conheciam, como eu era, o resultado foi esse:
             
                - Eu, segundo eu mesmo (lembrando que estava numa época da minha vida em que me sentia a pior pessoa do mundo)
                Preguiço, arrogante, orgulhoso, insensível, piegas, raivoso, repulsivo, dormir tarde, carente, desmotivado, imaturo.
                 - Eu, segundo os outros (pedi sinceridade para as pessoas)
                 Quieto, tímido, bem humorado, legal, gente boa, introspectivo, mais intelectual do que esportivo, gosto por coisas cultas e obscuras, tenta ser amigável, devagar, assustado, desmotivado, carente, devaneia, influenciável, fechado.
                  Existem períodos da vida em que nosso auto-conhecimento é envolvido por um manto negro, de modo que criamos uma visão distorcida de nós mesmos. Felizmente, existem os amigos para nos abrir os olhos.

29.4.12

Delírios do subsolo I

                 Sou um homem sem caráter e sem coragem.  Há algo de errado com meus pulmões. Não funcionam muito bem. Há algo de errado comigo. Não sei ao certo o quê. Padeço de uma melancolia crônica e de uma angústia inexplicável. Me sinto sozinho. Nasci provavelmente numa noite chuvosa, sob um céu sem estrelas, de modo que meus olhos nunca se acostumaram ao excesso de luz. Quando criança era alegre, entretanto de saúde frágil. Cresci entre relações tumultuadas com a família e colegas de escola. Tinha poucos amigos. Era solitário e estudioso.
                Na juventude fiz alguns amigos fiéis, por quem sinto grande afeição. Isso não me livrou da solidão. É como se ninguém me compreedesse por inteiro. O que fiz de minha juventude? Me perguntei mais de uma vez se dei um significado a minha vida. Não obtive resposta.  Tive alguns impulsos de realização que foram suprimidos por uma falta de vontade tremenda. Procrastinava constantemente. Me sentia fraco.
                 Durante a faculdade morei num quartinho de 12 m², que permanecia escuro durante todo o dia, o qual apelidei de "meu subsolo", em homenagem ao grande Dostoiévski. Os delírios começaram logo depois, quando era observado constantemente por um vizinho, que me deixou paranóico. Comecei a viver uma rotina de medo e desespero. Sempre imaginei a vida como um livro a ser escrito. A minha estava sendo escrita e era uma história tragicômica.
                Felizmente, ela não teve um fim breve. Consegui me salvar de mim mesmo. Estava pronto para recomeçar. Enfrentei o medo que sentia e continuei a faculdade de arquitetura e urbanismo. Hoje, não entendo o porquê, mas sinto um imenso vazio. Desde sempre percebi minha vocação para escrita e atualmente isso está muito claro para mim: nasci para escrever. Tudo isso me faz perceber o erro que talvez tenha cometido, a escolha da faculdade. Só futuro poderá dizer se foi um erro ou não. Contudo, novamente pergunto, o que fiz de minha juventude?
                 Sei que sou e serei julgado sempre, então enviarei um recado aos que julgam: guardem seus martelos. Guardem seus martelos, pois o julgamento está marcado para amanhã. E amanhã estarei pronto. Deixarei que meus delírios tomem o meu teclado, para dizer tudo que se passa dentro de mim, e com isso estarei pronto. Posso ser um homem sem caráter e sem coragem, mas por mais vazio que me sinta, estou tomado por sentimentos, que já não podem ser contidos. Estarei pronto para enfrentar o destino inglório que minha existência me reserva. Que venha o futuro.
                 Estarei sempre delirando para vocês meus amigos leitores. Agradeço sinceramente a visita.

16.4.12

Posso parecer carente, mas...

          Há uma nova dinâmica nas relações humanas. Um curtir no facebook (notem que nem falo mais de orkut), uma mensagem no celular, tudo isso serve para colher restos de afeto hoje em dia. Eu mesmo tenho mais de 200 amigos no facebook, já vi todos (todos? agora não sei) ao vivo pelo menos uma vez. Entretanto conheço pouquíssimos. E pouquíssimos me conhecem, de verdade, como amigos nos conhecem.
          Interessante pensar na quantidade de pessoas com quem nos relacionamos e como essas relações se tornaram tão superficiais. Enquanto escrevia haviam 58 contatos online e não conversava com nenhum. A verdade é que não sou a pessoa mais amada do mundo para servir como exemplo, mas vocês entendem o que digo. Espero. Se não entendem, perguntem. 
         O que digo é o seguinte: as relações estão se reduzindo a metal, plástico e corrente elétrica. As conversas de bar, os abraços nos amigos, eles se reduziram. E por mais que eu não seja o tipo de ser humano mais sociável, sei que esse fenômeno não ocorre só comigo.O fato de se reduzirem não significa que estejam extintas, mas estão reservadas para aquele tipo de amigo mais íntimo, aquele amigo de verdade.
          Não sei até que ponto isso é ruim, mas sei que isso cria uma carência de afeto. Sentimos falta de um abraço ou da reunião com os amigos (SENTIMOS, não vou entrar nessa sozinho). Com quantos dos seus "amigos" do facebook você teve uma boa conversa sem o intermédio de telas? Sim, foram poucos. É disso que falo. Essas pessoas recebem o título de "amigos" sem mal nos conhecermos.
          Vou confessar, só para vocês, queridos poucos leitores: eu mesmo estou sofrendo desse tipo de carência. Na verdade estou num estágio pior, sou um carente real e virtual. É sentir falta do "curtir" e do aperto de mão. É tentar estar sempre online para ver se alguém fala com você. É querer marcar uma cerveja com aquele indivíduo do seu facebook que você mal conhece. Sei que alguém mais sente o mesmo do que eu. Ou não?
          Lançarei minha campanha: conversemos com nossos "amigos" do facebook. Começamos através do teclado, depois passamos a uma conversa ao vivo. Sei que os tímidos vão recuar, porque o teclado é muito mais seguro. Nele você erra e apaga. Também sei que as pessoas nem sempre são receptivas (e como sei). E sei também do risco de parecer carente. Mas vamos tentar. Seria bom para todos. Até para percebemos que aquele "amigo" do facebook, não é tão amigo assim. Ou preferimos ficar com nossos restos de afeto?

          P.S.: Difícil será (ou seria?) eu mesmo, vencer minha própria timidez.

Raquel Rolnik

Blog da Raquel Rolnik, urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada. Tivemos o prazer de recebê-la na FAU-Unicamp no dia 12/04. 


http://raquelrolnik.wordpress.com/

23.2.12

No ônibus I

            Sentou ao lado da moça no ônibus, a qual nunca na vida tinha visto. Estava irritado com alguma coisa. Falava baixo, mas energicamente.
            - Sabe de uma coisa? Eles podem dizer o que quiser. Eu nunca me importei muito com os dizeres das pessoas.  Por isso eu seria um ótimo psicólogo. O fato de não me importar não significa não atentar e refletir sobre o que ouço. É apenas uma forma de enfrentar o mundo.Entretanto, não sou psicológo, mas lhe direi, nada é mais destrutivo do que as palavras e a imensa maioria das pessoas não age como eu. Elas se magoam e balbuciam mais besteiras. Aprenda a ouvir e a ignorar no momento certo. Em algumas situações, use a palavra como quem maneja um bisturi durante uma cirurgia: um erro pode causar uma morte, use-a com toda a precisão; em outras, deixe que surja e saia livremente, espere e aceite a reação causada. Contudo, nunca se esqueça: as pessoas sempre vão julgá-las, antes de tudo, pelas palavras que você usa.  
              O mundo lá fora é cruel, posso te dizer com certeza. A convivência entre seres humanos é auto-destrutiva. Nossa sociedade está a cada dia mais integrada e por isso mesmo mais degenerada. Entretanto, não há nada melhor do que estar com um amigo. Parece contraditório? Parece porque é. Aliás, o mundo além de cruel, é cheio de contradições, entenda isso. Aliás, tente não entender, pois tentar irá deixá-la louca.
             Todos cometemos erros. Perdoar é elevar-se sobre eles, mas isso não significa deixar que te abusem. Reagir energicamente é necessário às vezes. Fui mais pacífico do que devia e por isso posso dar estes conselhos. Entretanto, antes de agir tente sempre enxergar além das atitudes. Para todo ato há uma circunstância e uma conseqüência. Isso vale tanto para os seus quanto para os outros. As pessoas pré-julgam, porque é muito mais fácil pré-julgar do que compreender além. É fácil ser cruel. Os fracos são cruéis, pois precisam sempre subjugar alguém para se sentirem fortes. Não seja fraca.
                A moça ouvia calada durante todo o momento.
                - Em tempos como esses, em que o homem se sente tão inteligente, percebe-se a nossa condição de animal estúpido. Há tantas formas de se fazer que não se sabe o que deve ser feito. Os cães compreendem os cães, bem como as amebas compreendem as amebas. Mas os homens não compreendem os homens. Criam todo tipo de crença e teoria sobre comportamento humano e não podem entender sua própria espécie, habilidade que qualquer outro ser vivo possui. (Alguém irá argumentar que uma ameba não tem inteligência para compreender nada, e eu gentil comigo mesmo apenas, ignorarei).
                   E o mais importante: sempre haverá alguém disposto a lhe dar conselhos, como mestre da razão e profundo conhecedor das mazelas do mundo. Quase todo o ser humano sente-se assim. Essa pessoa irá falar tanto sobre o desconcerto da humanidade que seus ouvidos se encherão de cera antes dela terminar. E você terá de limpar-los de novo se quiser ouvir novamente. Jamais ignore essas pessoas, mas sempre desconfie delas...
               - Compreendo... mas isso significa que devo desconfiar de você?
               - ...exceto se a pessoa for eu mesmo, nesse caso confie, pois sou mestre da razão e profundo conhecedor das mazelas do mundo. Não parece óbvio?
              Levantou-se, fez sinal ao motorista e caminhou para a porta do ônibus. Antes de descer ainda disse:
              - E eu sou louco mesmo! Quem além dos loucos é mais dono da razão?
              Desceu do ônibus. A moça jamais soube quem era ele, mas desconfia até hoje de tudo que escuta.