16.6.12

Delírios do Subsolo III


            Não aguento mais. Por favor, me dê algo que me faça dormir. Preciso sonhar. Penso. Tenso. Lenço. Percebem como é fácil rimar? Por isso as rimas são assim, tão frágeis. Mas, a questão não é essa. A questão é que existo. Apenas isso. Existo por existir? Existo como todas as outras coisas existem.  Há algo de maravilhoso na existência? Se há, ignoro.
            Estou há dias invertendo meus horários de sono: durmo de dia, fico acordado durante toda a noite. É algo que causa danos ao organismo, chega a ser quase insuportável. Apesar de tudo me sinto bem. A noite tem algo de inspirador. Talvez seja o frio, talvez seja o céu com estrelas. Então, mercúrio está em câncer. Que significa isso? Não sei. Não entendo nada de astrologia. Só sei que sou canceriano, nascido no mesmo dia que Franz Kafka. Gosto de ter algo que me une ao meu mestre em literatura. Como canceriano, segundo as minhas poucas leituras sobre astrologia, sou sonhador, sensível e bastante ligado à família, tendo um forte instinto gregário.
            Isso não muda o fato de existir. Existo contra a minha vontade. Minha vontade mesmo era ser energia, que está presente em tudo e em nada ao mesmo tempo. Mas, não posso pensar nisso, prometi a mim mesmo nunca mais fraquejar... como naquela noite. Não irei fraquejar. Há algo de maravilhoso em existir? Se há, é na existência dos outros, na minha não. Tenho quase duas décadas de vida, sem ter realizado absolutamente nada de importante. O que é esse vazio? Por que me sinto assim? Preciso dormir.
           Há certa volúpia na insônia. Um prazer imoral e perverso, que causa danos à memória e ao raciocínio. Pois, há prazer no sofrimento. Principalmente, no sofrimento de existir. Esse vazio, esse incompleto, é tão destrutivo, gera uma busca insana por algo que nem se sabe o que é, uma realização, um grande feito, entretanto, gera uma volúpia. A volúpia de existir e não fazer sentido, e a volúpia de buscar ser e a volúpia de estar tão incompleto a ponto de...
           Sinto dor nos olhos. Alguém me dê um remédio para dormir.

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