1.4.18

José (2010)


Texto que escrevi em 2010. Na época fazia cursinho e tinha 18 anos.

José

         Loucos, todos loucos. Mas eu não, eu não. Estou aqui nesse lugar sujo porque falam comigo e eu respondo. Há crime nisso? Há? Não! Isso só prova minha sanidade! A culpa não é minha por eles serem tão tagarelas...
          - José, traz água pra mim, traz leite, traz vinho.
          - Cala a boca, inútil, ratos não tomam vinho!
          Por que perder tempo falando com esses doidos? Não podem me entender, são inferiores. Se tivessem higiene ao menos, seriam dignos de uma conversa. Falei... falei que aqui não era lugar para mim, o doutor me ignorou, me chamou de doente e me deixou aqui. Se eu sou doente o doutor que me cure, é o trabalho dele.
             - José, tô sujo, tô feio, tô fedido, tô triste.
             - Ô seu imbecil, você é assim, vai morrer assim!
              O doutor me chamou de louco. A Madona me chamou de louco. O presidente me chamou de louco. Tá bom, sou louco. E quem não é? E tem coisa mais absurda que a medicina, a música, a política? E nós não somos iguais por sermos todos loucos?
              - José, acende a fogueira, tá escuro e tô com frio!
              - Não tem lenha aqui, você não trouxe! Agora não amola!
               Se esses energúmenos desgrudassem de mim, ou parassem de falar, eu seria gênio, não doido. Seria mais doutor do que o doutor. É, eu sou gênio. Minha genialidade não pode ficar nesse cubículo sujo com esses encostos. Quando eu sair desse lugar vou mandar o doutor, a Madona, o presidente para um Hospital Colônia, lá na Amazônia, aí eles vão ver só...
              - José, tome seu remedinho, tome. Tá mais calminho? Você só sai do isolamento quando se acalmar. É bom que seja logo, se não quiser ficar a vida toda nesse escuro. Já tá aí uma semana e não sossega... Olha! Tá todo mijado! Vem, vamo andando, que eu tenho muito o que fazer...