27.6.12
16.6.12
Delírios do Subsolo III
Não aguento mais. Por favor, me dê algo que me faça dormir.
Preciso sonhar. Penso. Tenso. Lenço. Percebem como é fácil rimar? Por isso as
rimas são assim, tão frágeis. Mas, a questão não é essa. A questão é que
existo. Apenas isso. Existo por existir? Existo como todas as outras coisas
existem. Há algo de maravilhoso na
existência? Se há, ignoro.
Estou há dias invertendo meus horários de sono: durmo de
dia, fico acordado durante toda a noite. É algo que causa danos ao organismo,
chega a ser quase insuportável. Apesar de tudo me sinto bem. A noite tem algo
de inspirador. Talvez seja o frio, talvez seja o céu com estrelas. Então,
mercúrio está em câncer. Que significa isso? Não sei. Não entendo nada de
astrologia. Só sei que sou canceriano, nascido no mesmo dia que Franz Kafka.
Gosto de ter algo que me une ao meu mestre em literatura. Como canceriano,
segundo as minhas poucas leituras sobre astrologia, sou sonhador, sensível e
bastante ligado à família, tendo um forte instinto gregário.
Isso não muda o fato de existir. Existo contra a minha
vontade. Minha vontade mesmo era ser energia, que está presente em tudo e em
nada ao mesmo tempo. Mas, não posso pensar nisso, prometi a mim mesmo nunca
mais fraquejar... como naquela noite. Não irei fraquejar. Há algo de
maravilhoso em existir? Se há, é na existência dos outros, na minha não. Tenho
quase duas décadas de vida, sem ter realizado absolutamente nada de importante.
O que é esse vazio? Por que me sinto assim? Preciso dormir.
Há certa volúpia na insônia. Um prazer imoral e perverso,
que causa danos à memória e ao raciocínio. Pois, há prazer no sofrimento.
Principalmente, no sofrimento de existir. Esse vazio, esse incompleto, é tão
destrutivo, gera uma busca insana por algo que nem se sabe o que é, uma
realização, um grande feito, entretanto, gera uma volúpia. A volúpia de existir
e não fazer sentido, e a volúpia de buscar ser e a volúpia de estar tão
incompleto a ponto de...
Sinto dor nos olhos. Alguém me dê um remédio para dormir.
10.6.12
Estrangeiro I
No
dia em que ultrapassei a última fronteira e alcancei esta terra, sabia que tudo
aqui estava errado, sabia que deveria mudar tudo. Entretanto, nunca senti que
tinha força suficiente para isso. Falhar não podia estar em meus planos. Mas,
era meu destino falhar, como falhei em tudo que fiz.
Era uma noite de chuva. Sentia,
além de muitas dores, medo e ansiedade. Desci do trem e abri logo o guarda-chuva,
que quase não me protegia devido ao vento. Havia um bar próximo à estação, me
instalei por lá enquanto a chuva não cessava. Tenho muito medo da chuva, creio
que seja aquilo o qual me dá mais medo no mundo. O lugar era pequeno e poucas
pessoas estavam ali. Eram homens adultos, não chegavam a ser idosos, de início
me encaravam com curiosidade, mas logo voltaram a conversar e beber. A idéia de
que os cidadãos não se importavam com meu sofrimento me dava um estranho
alívio. É ironicamente maravilhoso saber o quanto sou insignificante e crer que
ninguém sente piedade por mim, pois traz a linda ilusão de que sobrevivo
sozinho, sou independente e não necessito de ninguém.
Fazia
muito frio, coloquei minha mochila, meu guarda chuva e minha pasta no chão,
sentei junto ao balcão e pedi um café com leite bem quente. O funcionário
preparava o café, enquanto isso, conversava comigo. Ele tinha bigode e cabelos
loiros compridos, que já se tornavam brancos, era alto, tinha lábios e nariz
finos, além de marcas da idade, já devia ter seus cinqüenta anos, vestia uma
camisa xadrez vermelha:
- O
senhor é estrangeiro, de certo, não?
-
Sim, acabei de chegar, viajo há dias.
-
É... Reconheço estrangeiros de longe. Atendo muitos como o senhor, mas poucos
tão jovens. Parece vir de longe mesmo... Aquele ali – disse apontando para um
senhor de barba escura, sentado em uma mesa - é estrangeiro também, mas não
fala nossa língua. O que te trouxe para esse lugar?
“Ainda não sei ao certo”, respondi mentalmente. Morrerei sem saber.
-
Pretendo mudar de vida. – respondi enquanto olhava para o copo e adoçava o
café, aproveitando a ocupação para não fitá-lo nos olhos, temendo que
percebesse a insegurança de minha resposta.
-
Ah! Também morará nesse lugar medíocre. Quando cheguei aqui, era como o senhor,
com muitos sonhos. Aposto que não percebeu que sou estrangeiro? – consenti com
a cabeça apenas e tomei um gole de café – Pois é, eu era músico, perdi minha
mulher e vim parar nesse lugar. Hoje sou um deles, um desses imbecis nascidos
aqui. Sim, cheguei esperançoso de mudar o mundo e aqui estou, atrás desse
balcão. Mas não reclamo, vivo bem, apesar da obrigação de conviver com essas
pessoas... Só sinto falta de minha esposa... e do meu violino... Com certeza, o
senhor tem sonhos?
-
Todos temos, todos temos. Procurarei um emprego, com algum dinheiro posso me
aprimorar na arte e passar a viver somente dela. Não sou um gênio, mas tenho
alguma habilidade artística e intelectual. Estudei filosofia posso dar aulas,
ou mesmo aulas de desenho...
Fui
interrompido pela risada alta do atendente. A chuva estava cessando. Continuou
o diálogo:
-
Então o senhor tem muitos sonhos, mas nenhum plano! – disse rindo – Estudou
filosofia e arte, ainda por cima? Certamente será solitário nesse lugar... –
ele continuou, entretanto, mudou seu tom de voz, carregou-o de uma raiva ferina
– Esse lugar... Afunda a cada dia no ódio e na ignorância... E o senhor... Vejo
isso... O senhor tem uma mente elevada, é um homem diferente... Não haverá
lugar no mundo em que seremos felizes e completos... Eu e você... Também não
haverá pessoas aqui com a qual possamos conviver agradavelmente... Com exceção
dos forasteiros, pena que são tão poucos...
Dizia
tudo aquilo como se estivesse esperando por anos para dizer e jamais encontrara
alguém para ouvir-lo. Seu desabafo me trouxe muitas reflexões. Entretanto,
achei melhor interrompê-lo, pois senti que ele ganhava, através de seu
discurso, antipatia dos outros ouvintes não inclusos na conversa, além disso, a
chuva estava cessando e eu terminara o café:
- Pode
me indicar uma pensão?
- Ah,
claro que sim, meu jovem... – pegou um pedaço de papel e pôs-se a anotar um
endereço e um telefone – O café está pago. Não posso cobrar nada do senhor –
completou rindo novamente – Me chame Balaão. Posso perguntar seu nome?
- L.
Muito obrigado. Boa noite.
- Boa
noite L. Volte sempre... E não deixe que este lugar destrua sua mente... Como
destruiu a minha...
Carreguei minhas coisas e fui saindo. Balaão me chamou quando estava
perto da porta:
- Não confie em ninguém L. Todos aqui
fingem. O senhor está sozinho, sempre.
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