23.2.12

No ônibus I

            Sentou ao lado da moça no ônibus, a qual nunca na vida tinha visto. Estava irritado com alguma coisa. Falava baixo, mas energicamente.
            - Sabe de uma coisa? Eles podem dizer o que quiser. Eu nunca me importei muito com os dizeres das pessoas.  Por isso eu seria um ótimo psicólogo. O fato de não me importar não significa não atentar e refletir sobre o que ouço. É apenas uma forma de enfrentar o mundo.Entretanto, não sou psicológo, mas lhe direi, nada é mais destrutivo do que as palavras e a imensa maioria das pessoas não age como eu. Elas se magoam e balbuciam mais besteiras. Aprenda a ouvir e a ignorar no momento certo. Em algumas situações, use a palavra como quem maneja um bisturi durante uma cirurgia: um erro pode causar uma morte, use-a com toda a precisão; em outras, deixe que surja e saia livremente, espere e aceite a reação causada. Contudo, nunca se esqueça: as pessoas sempre vão julgá-las, antes de tudo, pelas palavras que você usa.  
              O mundo lá fora é cruel, posso te dizer com certeza. A convivência entre seres humanos é auto-destrutiva. Nossa sociedade está a cada dia mais integrada e por isso mesmo mais degenerada. Entretanto, não há nada melhor do que estar com um amigo. Parece contraditório? Parece porque é. Aliás, o mundo além de cruel, é cheio de contradições, entenda isso. Aliás, tente não entender, pois tentar irá deixá-la louca.
             Todos cometemos erros. Perdoar é elevar-se sobre eles, mas isso não significa deixar que te abusem. Reagir energicamente é necessário às vezes. Fui mais pacífico do que devia e por isso posso dar estes conselhos. Entretanto, antes de agir tente sempre enxergar além das atitudes. Para todo ato há uma circunstância e uma conseqüência. Isso vale tanto para os seus quanto para os outros. As pessoas pré-julgam, porque é muito mais fácil pré-julgar do que compreender além. É fácil ser cruel. Os fracos são cruéis, pois precisam sempre subjugar alguém para se sentirem fortes. Não seja fraca.
                A moça ouvia calada durante todo o momento.
                - Em tempos como esses, em que o homem se sente tão inteligente, percebe-se a nossa condição de animal estúpido. Há tantas formas de se fazer que não se sabe o que deve ser feito. Os cães compreendem os cães, bem como as amebas compreendem as amebas. Mas os homens não compreendem os homens. Criam todo tipo de crença e teoria sobre comportamento humano e não podem entender sua própria espécie, habilidade que qualquer outro ser vivo possui. (Alguém irá argumentar que uma ameba não tem inteligência para compreender nada, e eu gentil comigo mesmo apenas, ignorarei).
                   E o mais importante: sempre haverá alguém disposto a lhe dar conselhos, como mestre da razão e profundo conhecedor das mazelas do mundo. Quase todo o ser humano sente-se assim. Essa pessoa irá falar tanto sobre o desconcerto da humanidade que seus ouvidos se encherão de cera antes dela terminar. E você terá de limpar-los de novo se quiser ouvir novamente. Jamais ignore essas pessoas, mas sempre desconfie delas...
               - Compreendo... mas isso significa que devo desconfiar de você?
               - ...exceto se a pessoa for eu mesmo, nesse caso confie, pois sou mestre da razão e profundo conhecedor das mazelas do mundo. Não parece óbvio?
              Levantou-se, fez sinal ao motorista e caminhou para a porta do ônibus. Antes de descer ainda disse:
              - E eu sou louco mesmo! Quem além dos loucos é mais dono da razão?
              Desceu do ônibus. A moça jamais soube quem era ele, mas desconfia até hoje de tudo que escuta.

20.2.12

Esclarecimentos

          Já faz um bom tempo que luto contra a depressão.  Comecei a tomar medicamentos aos 17 anos e tomo até hoje. Recentemente iniciei tratamento psicológico, além do medicamentoso. Creio que os sintomas surgiram anteriormente. Talvez o julgamento da maioria das pessoas diga que não sofri o suficiente para ter essa doença, mas justamente por ser uma patologia, pode afetar qualquer pessoa e independente de quem seja, sempre é um sofrimento.
         Sei das vezes em que fui grosso ou agi errado e não estou disposto a usar uma doença como bode expiatório dos meus pecados, escrevo justamente porque quero esclarecer alguns dos sintomas. Irritação, insônia, tristeza, raiva, culpa, baixa auto-estima, pensamentos suicidas são alguns dos que apresentei e ainda apresento, com bem menos intensidade. Houve um agravamento no período em que passei no vestibular e comecei a morar sozinho. Além da solidão, passei a sofrer com ameaças constantes de um vizinho que parecia se incomodar com o barulho que eu fazia durante a madrugada. Não sei ao certo a parcela de culpa que tive nesse caso, mas isso agravou bastante a situação, até minha primeira tentativa de suicídio.
        Comecei a ter sintomas psicóticos, de perseguição e pânico, bem como alucinações e perda da realidade. Estava paranóico. Além disso, surgiu um sentimento de culpa insuportável.  Num dia, tomei um ônibus para Santos, disposto a me matar afogado. Felizmente, fui salvo por um casal que passava no momento, o qual me fez enxergar a verdadeira situação: não estava completamente sozinho. A partir daí passei a receber um grande apoio da família e amigos, bem como dos funcionários do SAPPE da UNICAMP.
         Ao voltar ainda sofria e sofro alucinações. Ouço vozes me agredindo em qualquer lugar em que haja muitas pessoas e tenho sentimento de paranóia, culpa e tristeza quase que constantes, atenuados e muito, pelos remédios e pela terapia. Talvez sejam atribuídas a esquizofrenia, diagnóstico que aceito sem problemas. Tomo anti-depressivos e anti-psicóticos e estou num tratamento bastante eficaz. Pretendo transformar essa história numa de vitórias e sucesso, talvez sem anular totalmente os sintomas, mas convivendo melhor com eles.
        Por que decidi compartilhar tudo isso? Como disse anteriormente, por questão de esclarecimento dos comportamentos estranhos que creio ter tido, bem como uma forma de dizer ás pessoas que não desistam de lutar. A sociedade nos faz muitas vezes, nos sentirmos fracos, por meio de violências sutis (o deboche no trabalho, por exemplo), que nos levam a desencadear transtornos que pode nos tirar as forças, mas casos como o meu possuem tratamento eficaz e o doente pode conviver  sob pequenas restrições, mas sem grandes embaraços. Obrigado.

12.2.12

Carta a meu pai

"É como se alguém devesse subir cinco degraus baixos, e outros apenas um; o qual, ao menos para ele, é tão alto como a soma daqueles cinco; o primeiro não apenas vencerá esses cinco, porém centenas e milhares mais; terá realizado uma existência importante e muito esforçada, mas nenhum dos degraus que subiu terá tido uma uma importância igual como para o segundo esse único, inicial, alto, inacessível para todas as suas forças, ao qual não pode subir e, logicamente, tampouco, pode passar por cima."

KAFKA, Franz.


7.2.12

Conto melhor do que uma tela que pintei (isso não significa que seja bom)


         Os homens são divididos em duas classes: os que têm paciência para esperar a tinta secar e os que não têm. Eu sou do segundo grupo. Os do primeiro podem ter muito sucesso, pintando telas... ou paredes.
         Por ser do segundo grupo fiquei levemente desconfortável quando utilizei tinta a óleo pela primeira vez e ela demorou “apenas” duas semanas para ficar completamente seca. Além de ter algumas alucinações devido ao uso da terebintina (solvente para pigmentos de tinta a base de óleo, com odor característico), que incluíam: beber como Pollock, achar que perdi a orelha como Van Gogh e sofrer ilusões de ótica como as de Escher. Nada anormal.
         Depois descobri que as alucinações não eram devido à terebintina, mas a um acidente de infância, quando uma das muletas de Dalí caiu sobre a minha cabeça criando uma cicatriz em forma de raio, tal qual a do protagonista de Harry Potter. Felizmente (?) sobrevivi, mas não sem ter ficado levemente e permanentemente maluco.
         Tudo corria mal, até que num belo dia estava andando pela papelaria junto de uma vendedora (de papel) que não sabia o que significava A3 (tamanho de papel) e vi o radiante objeto de meus desejos mais íntimos: secante de cobalto. Serve para fazer com que a tinta seque muito mais rápido (usem pessoal).
          Finalmente, pude começar minha nova tela seguindo a lógica de que: se tenho uma parte de louco, também devo ter uma parte de gênio. Mas o mundo não é assim, de modo que vim com duas partes de louco e nenhuma de gênio e a tela ficou um lixo. Não que eu tenha uma auto-estima muito boa para classificar algo que fiz como bom, enfim, a tela ficou horrível, minha mãe achou linda e eu perdi dinheiro, por isso resolvi escrever esse texto.

Philip III

        Philip III era um gato arrogante e misantropo. Sim, misantropo. Os dengos felinos que fazia estavam sempre visando interesses muito habilmente e friamente calculados. Arrogante, raça pura, rara e bela. Por não gostar de humanos, não sentia aquilo que se chama amor por seu escravo humano – vulgo dono - mas aquilo que se chama dependência, com uma mistura daquilo que se chama raiva, cultivada pela incapacidade de comunicação com um ser tão inferior como seu escravo, cujo nome era Willian.
        Willian era um humano sem graça, vivia sozinho num apartamento. Tinha poucos amigos e julgava ser seu mestre Philip III, o melhor deles. Coitado. Philip III vinha de uma linhagem muito nobre de gatos de extrema inteligência. Seu avô, Philip I, conseguiu o feito de visualizar uma cobra camuflada no jardim e mata-la (obviamente ele não era um gato de apartamento). Isso já demonstrava a atenção e a visão contida em seus genes que seriam transmitidas para a próxima geração.
        Philip III também desejava um grande feito para marcar seu nome entre toda a nobreza felina. Apesar de ser um gato mimado e de apartamento, era muito observador, logo sentiu a falta da rede de segurança na janela da sala do apartamento, que provavelmente estava em processo de troca, já que Willian estava desesperadamente... ou pateticamente, tentando reinstala-la. E ali nosso amigo felino viu algo mais valioso do que salmão, a liberdade. Prontamente saltou no beiral da janela, assustando o escravo e pulou para o beiral da janela vizinha e da outra e da outra, até parar finalmente na janela de uma moça, dona de um apartamento que cheirava a comida deliciosa. Felizmente, os beirais possibilitaram essa sequência de saltos, caso contrário, não teríamos nosso protagonista.
       Enquanto isso, o pobre Willian perseguia seu senhor pelos beirais das janelas do 12º andar e foi de janela e janela, quando finalmente viu seu senhor dentro do apartamento e a moça... a moça que fez seu coração bater mais forte, o suor escorrer pelo rosto, as mãos tremerem e surgir aquele sentimento e,  então... ploft. Ou plaft, plift, tum, escolham a melhor onomatopeia para o jovem falecido Willian, ex-escravo de Philip III, o qual, naturalmente, ganhou o título de “O Terrível”, mas não ficou sem servos. Foi adotado por uma doce senhora que gostava muito de gatos e tinha algo em torno de quinze colegas para Philip III.
          “Maldita ralé”, pensou o rei Philip III, O Terrível.