9.12.18

Sobre a reforma do Ensino Médio


Ela já tinha sido prevista desde 2016, na chamada MP746 do mesmo ano. A MP foi aprovada em 2017. O texto, na época em que foi lançada a MP, estava disponível no site do Senado. Uma das previsões era a obrigatoriedade, apenas, do Ensino de Português e Matemática no Ensino Médio. Essa previsão se efetivou agora com a aprovação da Base Nacional Comum Curricular para o ensino médio, documento que estabelece as habilidades e conteúdos a serem aprendidos pelos alunos durante o período escolar, em instituições privadas e públicas.
Assim, segundo o texto atual da nova BNCC, apenas Português e Matemática surgem como disciplinas obrigatórias, de modo que as outras devem ser “diluídas”, ou seja, o texto não deixa claro como devem ser oferecidas as disciplinas que não são tidas como obrigatórias.
Entretanto, sabe-se que o aluno poderá escolher uma “ênfase” que lhe seja mais atraente, sendo que, a princípio, seriam cinco: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas ou Ensino Técnico. O MEC ainda vai escrever sobre isso. Os municípios possivelmente deverão oferecer pelo menos duas, das cinco, dessas ênfases. O problema é que “53% das cidades brasileiras têm só uma escola de ensino médio” (segundo Istoé: istoe.com.br/essencial-para-reforma-do-ensino-medio-base-curricular-e-aprovada)

Os problemas.
Segundo o texto da MP, o oferecimento das ênfases será determinado pelos sistemas de ensino. Soma-se a isso o dado anteriormente apresentado sobre as escolas de ensino médio nas cidades brasileiras. Fica evidente que a ideia de que o aluno escolhe a ênfase que preferir é mito. Na maior parte do tempo, ele será obrigado a escolher aquelas oferecidas pela escola mais acessível para ele. Não havendo a obrigatoriedade de oferecimento de todas as ênfases por parte das escolas públicas, não há possibilidade de escolha para todos os estudantes.
Além disso, o abismo entre os estudantes de escolas públicas e particulares tenderá a se aprofundar. Isso pois o acesso ao Ensino Superior público (tanto pelo Sisu, como pelos próprios vestibulares das próprias instituições) precisaria ser reformulado totalmente para que possa tornar-se efetivamente democrático. Sendo mais claro: a seleção dessas instituições não cobra uma ou duas ênfases, mas todo o conteúdo do ensino médio. E as escolas particulares não oferecerão apenas ênfases, mas todo o conteúdo. Dessa forma, estamos caminhando para o lado oposto à democratização da educação, e ao mesmo tempo, em direção ao aprofundamento das desigualdades sociais. E já sabemos em resulta esse aumento: violência. Ensino público sucateado financia a falta de oportunidades. Falta de oportunidades promove a violência.
Não sei ao certo, mas imagino que os principais objetivos dessa reforma seja minar aos poucos o ensino crítico e voltado para a cidadania, promovendo apenas o ensino técnico, criando mão de obra barata e acrítica. Ou seja, educação voltada apenas ao capitalismo, que promove desigualdade, ao invés de democracia, que promove a exclusão e portanto, a violência.

Alexandre Lima Paixão, professor de Filosofia

1.4.18

José (2010)


Texto que escrevi em 2010. Na época fazia cursinho e tinha 18 anos.

José

         Loucos, todos loucos. Mas eu não, eu não. Estou aqui nesse lugar sujo porque falam comigo e eu respondo. Há crime nisso? Há? Não! Isso só prova minha sanidade! A culpa não é minha por eles serem tão tagarelas...
          - José, traz água pra mim, traz leite, traz vinho.
          - Cala a boca, inútil, ratos não tomam vinho!
          Por que perder tempo falando com esses doidos? Não podem me entender, são inferiores. Se tivessem higiene ao menos, seriam dignos de uma conversa. Falei... falei que aqui não era lugar para mim, o doutor me ignorou, me chamou de doente e me deixou aqui. Se eu sou doente o doutor que me cure, é o trabalho dele.
             - José, tô sujo, tô feio, tô fedido, tô triste.
             - Ô seu imbecil, você é assim, vai morrer assim!
              O doutor me chamou de louco. A Madona me chamou de louco. O presidente me chamou de louco. Tá bom, sou louco. E quem não é? E tem coisa mais absurda que a medicina, a música, a política? E nós não somos iguais por sermos todos loucos?
              - José, acende a fogueira, tá escuro e tô com frio!
              - Não tem lenha aqui, você não trouxe! Agora não amola!
               Se esses energúmenos desgrudassem de mim, ou parassem de falar, eu seria gênio, não doido. Seria mais doutor do que o doutor. É, eu sou gênio. Minha genialidade não pode ficar nesse cubículo sujo com esses encostos. Quando eu sair desse lugar vou mandar o doutor, a Madona, o presidente para um Hospital Colônia, lá na Amazônia, aí eles vão ver só...
              - José, tome seu remedinho, tome. Tá mais calminho? Você só sai do isolamento quando se acalmar. É bom que seja logo, se não quiser ficar a vida toda nesse escuro. Já tá aí uma semana e não sossega... Olha! Tá todo mijado! Vem, vamo andando, que eu tenho muito o que fazer...

7.10.13

Capas para facebook III

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21.4.13

Capas para facebook II

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14.4.13

Não é real



         E você diz a todo o momento: não é real. Mas é evidente aos sentidos. E está na memória. É como se o inconsciente transbordasse para fora, para a realidade. É a realização de todas as culpas, temores, paranoias... O que antes, você vivia apenas na imaginação, mas com grande afetação psicológica, agora vive também através dos sentidos, o que aumenta a afetação psicológica. E você começa a desconfiar que são apenas delírios.
          E aí você se acostuma a confiar mais na percepção dos outros do que na sua e precisa traçar sua própria história com base, não em suas memórias, mas na que os outros têm de você. Porque para você, seu ser não passa de um fracasso total, um se repulsivo, o qual todos desejam perseguir e agredir. E isso não é real e você deve se convencer de que isso não é real.
         Não é real, mas você vive com medo das pessoas. E com um sentimento de culpa insuportável, por coisas que talvez, nunca tenham acontecido. Começa a pensar em suicídio. Ninguém mais pode perceber seu sofrimento. Mas você se esforça ao máximo para viver normalmente. Trabalha, estuda, sai com os amigos. Entretanto, ainda sente como se houvesse grande ódio por parte de todos por você. E por mais que as pessoas provem que você está errado, parece real.
          E, claro, você continua tendo delírios de que as pessoas falam de você, ou te agridem verbalmente, mas nunca acontece algo que evidencie de uma vez por todas que suas fantasias são reais. E você fica na expectativa constante, por que não dizer, esperança, de que algo aconteça para finalmente provar que você é uma pessoa normal, realmente perseguido e realmente odiado. Contudo, não é real.
          Você lida com isso durante um bom tempo. As pessoas parecem agressivas na sua mente, mas ao mesmo tempo te tratam com atenção, cuidado e gentileza. E então você tem que decidir quais evidências são mais sólidas, através da racionalidade, pois não se pode mais confiar nos sentidos: os delírios, que parecem reais ou a atitude das pessoas em relação a você. Por que alguém lhe perseguiria? Por que todos a sua volta lhe perseguiriam? E você percebe que não há motivo. Você está quase livre, mas ainda tem delírios.
         Nesse ponto você já deve ter concluído que precisa de ajuda. Então, medicamentos diminuem os delírios, mas não os anulam totalmente, muito menos a sensação de perseguição. A terapia trata toda a culpa e os temores, mas é preciso um longo trabalho. Você já tomou consciência de que é muito improvável tudo que fantasiou em sua mente. Entretanto, ainda existe a possibilidade, mesmo que pequena. Nesse caso, com todo o auxílio, contando muito com o apoio das pessoas de quem desconfia, você deve dizer a todo o momento: não é real. E acreditar.