14.4.13

Não é real



         E você diz a todo o momento: não é real. Mas é evidente aos sentidos. E está na memória. É como se o inconsciente transbordasse para fora, para a realidade. É a realização de todas as culpas, temores, paranoias... O que antes, você vivia apenas na imaginação, mas com grande afetação psicológica, agora vive também através dos sentidos, o que aumenta a afetação psicológica. E você começa a desconfiar que são apenas delírios.
          E aí você se acostuma a confiar mais na percepção dos outros do que na sua e precisa traçar sua própria história com base, não em suas memórias, mas na que os outros têm de você. Porque para você, seu ser não passa de um fracasso total, um se repulsivo, o qual todos desejam perseguir e agredir. E isso não é real e você deve se convencer de que isso não é real.
         Não é real, mas você vive com medo das pessoas. E com um sentimento de culpa insuportável, por coisas que talvez, nunca tenham acontecido. Começa a pensar em suicídio. Ninguém mais pode perceber seu sofrimento. Mas você se esforça ao máximo para viver normalmente. Trabalha, estuda, sai com os amigos. Entretanto, ainda sente como se houvesse grande ódio por parte de todos por você. E por mais que as pessoas provem que você está errado, parece real.
          E, claro, você continua tendo delírios de que as pessoas falam de você, ou te agridem verbalmente, mas nunca acontece algo que evidencie de uma vez por todas que suas fantasias são reais. E você fica na expectativa constante, por que não dizer, esperança, de que algo aconteça para finalmente provar que você é uma pessoa normal, realmente perseguido e realmente odiado. Contudo, não é real.
          Você lida com isso durante um bom tempo. As pessoas parecem agressivas na sua mente, mas ao mesmo tempo te tratam com atenção, cuidado e gentileza. E então você tem que decidir quais evidências são mais sólidas, através da racionalidade, pois não se pode mais confiar nos sentidos: os delírios, que parecem reais ou a atitude das pessoas em relação a você. Por que alguém lhe perseguiria? Por que todos a sua volta lhe perseguiriam? E você percebe que não há motivo. Você está quase livre, mas ainda tem delírios.
         Nesse ponto você já deve ter concluído que precisa de ajuda. Então, medicamentos diminuem os delírios, mas não os anulam totalmente, muito menos a sensação de perseguição. A terapia trata toda a culpa e os temores, mas é preciso um longo trabalho. Você já tomou consciência de que é muito improvável tudo que fantasiou em sua mente. Entretanto, ainda existe a possibilidade, mesmo que pequena. Nesse caso, com todo o auxílio, contando muito com o apoio das pessoas de quem desconfia, você deve dizer a todo o momento: não é real. E acreditar.

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