E você
diz a todo o momento: não é real. Mas é evidente aos sentidos. E está na
memória. É como se o inconsciente transbordasse para fora, para a realidade. É
a realização de todas as culpas, temores, paranoias... O que antes, você vivia
apenas na imaginação, mas com grande afetação psicológica, agora vive também
através dos sentidos, o que aumenta a afetação psicológica. E você começa a
desconfiar que são apenas delírios.
E aí
você se acostuma a confiar mais na percepção dos outros do que na sua e precisa
traçar sua própria história com base, não em suas memórias, mas na que os outros
têm de você. Porque para você, seu ser não passa de um fracasso total, um se
repulsivo, o qual todos desejam perseguir e agredir. E isso não é real e você
deve se convencer de que isso não é real.
Não é real, mas você vive com medo das
pessoas. E com um sentimento de culpa insuportável, por coisas que talvez,
nunca tenham acontecido. Começa a pensar em suicídio. Ninguém mais pode
perceber seu sofrimento. Mas você se esforça ao máximo para viver normalmente.
Trabalha, estuda, sai com os amigos. Entretanto, ainda sente como se houvesse
grande ódio por parte de todos por você. E por mais que as pessoas provem que
você está errado, parece real.
E, claro, você continua tendo delírios de que
as pessoas falam de você, ou te agridem verbalmente, mas nunca acontece algo
que evidencie de uma vez por todas que suas fantasias são reais. E você fica na
expectativa constante, por que não dizer, esperança, de que algo aconteça para
finalmente provar que você é uma pessoa normal, realmente perseguido e
realmente odiado. Contudo, não é real.
Você lida com isso durante um bom tempo. As
pessoas parecem agressivas na sua mente, mas ao mesmo tempo te tratam com
atenção, cuidado e gentileza. E então você tem que decidir quais evidências são
mais sólidas, através da racionalidade, pois não se pode mais confiar nos
sentidos: os delírios, que parecem reais ou a atitude das pessoas em relação a
você. Por que alguém lhe perseguiria? Por que todos a sua volta lhe
perseguiriam? E você percebe que não há motivo. Você está quase livre, mas
ainda tem delírios.
Nesse ponto
você já deve ter concluído que precisa de ajuda. Então, medicamentos diminuem
os delírios, mas não os anulam totalmente, muito menos a sensação de
perseguição. A terapia trata toda a culpa e os temores, mas é preciso um longo
trabalho. Você já tomou consciência de que é muito improvável tudo que
fantasiou em sua mente. Entretanto, ainda existe a possibilidade, mesmo que
pequena. Nesse caso, com todo o auxílio, contando muito com o apoio das pessoas
de quem desconfia, você deve dizer a todo o momento: não é real. E acreditar.
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