7.2.12

Philip III

        Philip III era um gato arrogante e misantropo. Sim, misantropo. Os dengos felinos que fazia estavam sempre visando interesses muito habilmente e friamente calculados. Arrogante, raça pura, rara e bela. Por não gostar de humanos, não sentia aquilo que se chama amor por seu escravo humano – vulgo dono - mas aquilo que se chama dependência, com uma mistura daquilo que se chama raiva, cultivada pela incapacidade de comunicação com um ser tão inferior como seu escravo, cujo nome era Willian.
        Willian era um humano sem graça, vivia sozinho num apartamento. Tinha poucos amigos e julgava ser seu mestre Philip III, o melhor deles. Coitado. Philip III vinha de uma linhagem muito nobre de gatos de extrema inteligência. Seu avô, Philip I, conseguiu o feito de visualizar uma cobra camuflada no jardim e mata-la (obviamente ele não era um gato de apartamento). Isso já demonstrava a atenção e a visão contida em seus genes que seriam transmitidas para a próxima geração.
        Philip III também desejava um grande feito para marcar seu nome entre toda a nobreza felina. Apesar de ser um gato mimado e de apartamento, era muito observador, logo sentiu a falta da rede de segurança na janela da sala do apartamento, que provavelmente estava em processo de troca, já que Willian estava desesperadamente... ou pateticamente, tentando reinstala-la. E ali nosso amigo felino viu algo mais valioso do que salmão, a liberdade. Prontamente saltou no beiral da janela, assustando o escravo e pulou para o beiral da janela vizinha e da outra e da outra, até parar finalmente na janela de uma moça, dona de um apartamento que cheirava a comida deliciosa. Felizmente, os beirais possibilitaram essa sequência de saltos, caso contrário, não teríamos nosso protagonista.
       Enquanto isso, o pobre Willian perseguia seu senhor pelos beirais das janelas do 12º andar e foi de janela e janela, quando finalmente viu seu senhor dentro do apartamento e a moça... a moça que fez seu coração bater mais forte, o suor escorrer pelo rosto, as mãos tremerem e surgir aquele sentimento e,  então... ploft. Ou plaft, plift, tum, escolham a melhor onomatopeia para o jovem falecido Willian, ex-escravo de Philip III, o qual, naturalmente, ganhou o título de “O Terrível”, mas não ficou sem servos. Foi adotado por uma doce senhora que gostava muito de gatos e tinha algo em torno de quinze colegas para Philip III.
          “Maldita ralé”, pensou o rei Philip III, O Terrível.

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