10.6.12

Estrangeiro I


                  No dia em que ultrapassei a última fronteira e alcancei esta terra, sabia que tudo aqui estava errado, sabia que deveria mudar tudo. Entretanto, nunca senti que tinha força suficiente para isso. Falhar não podia estar em meus planos. Mas, era meu destino falhar, como falhei em tudo que fiz.
                   Era uma noite de chuva. Sentia, além de muitas dores, medo e ansiedade. Desci do trem e abri logo o guarda-chuva, que quase não me protegia devido ao vento. Havia um bar próximo à estação, me instalei por lá enquanto a chuva não cessava. Tenho muito medo da chuva, creio que seja aquilo o qual me dá mais medo no mundo. O lugar era pequeno e poucas pessoas estavam ali. Eram homens adultos, não chegavam a ser idosos, de início me encaravam com curiosidade, mas logo voltaram a conversar e beber. A idéia de que os cidadãos não se importavam com meu sofrimento me dava um estranho alívio. É ironicamente maravilhoso saber o quanto sou insignificante e crer que ninguém sente piedade por mim, pois traz a linda ilusão de que sobrevivo sozinho, sou independente e não necessito de ninguém.
                 Fazia muito frio, coloquei minha mochila, meu guarda chuva e minha pasta no chão, sentei junto ao balcão e pedi um café com leite bem quente. O funcionário preparava o café, enquanto isso, conversava comigo. Ele tinha bigode e cabelos loiros compridos, que já se tornavam brancos, era alto, tinha lábios e nariz finos, além de marcas da idade, já devia ter seus cinqüenta anos, vestia uma camisa xadrez vermelha:
                  - O senhor é estrangeiro, de certo, não?
                  - Sim, acabei de chegar, viajo há dias.
                  - É... Reconheço estrangeiros de longe. Atendo muitos como o senhor, mas poucos tão jovens. Parece vir de longe mesmo... Aquele ali – disse apontando para um senhor de barba escura, sentado em uma mesa - é estrangeiro também, mas não fala nossa língua. O que te trouxe para esse lugar?
                  “Ainda não sei ao certo”, respondi mentalmente. Morrerei sem saber.
                  - Pretendo mudar de vida. – respondi enquanto olhava para o copo e adoçava o café, aproveitando a ocupação para não fitá-lo nos olhos, temendo que percebesse a insegurança de minha resposta.
                   - Ah! Também morará nesse lugar medíocre. Quando cheguei aqui, era como o senhor, com muitos sonhos. Aposto que não percebeu que sou estrangeiro? – consenti com a cabeça apenas e tomei um gole de café – Pois é, eu era músico, perdi minha mulher e vim parar nesse lugar. Hoje sou um deles, um desses imbecis nascidos aqui. Sim, cheguei esperançoso de mudar o mundo e aqui estou, atrás desse balcão. Mas não reclamo, vivo bem, apesar da obrigação de conviver com essas pessoas... Só sinto falta de minha esposa... e do meu violino... Com certeza, o senhor tem sonhos?
                  - Todos temos, todos temos. Procurarei um emprego, com algum dinheiro posso me aprimorar na arte e passar a viver somente dela. Não sou um gênio, mas tenho alguma habilidade artística e intelectual. Estudei filosofia posso dar aulas, ou mesmo aulas de desenho...
                 Fui interrompido pela risada alta do atendente. A chuva estava cessando. Continuou o diálogo:
                - Então o senhor tem muitos sonhos, mas nenhum plano! – disse rindo – Estudou filosofia e arte, ainda por cima? Certamente será solitário nesse lugar... – ele continuou, entretanto, mudou seu tom de voz, carregou-o de uma raiva ferina – Esse lugar... Afunda a cada dia no ódio e na ignorância... E o senhor... Vejo isso... O senhor tem uma mente elevada, é um homem diferente... Não haverá lugar no mundo em que seremos felizes e completos... Eu e você... Também não haverá pessoas aqui com a qual possamos conviver agradavelmente... Com exceção dos forasteiros, pena que são tão poucos...
                 Dizia tudo aquilo como se estivesse esperando por anos para dizer e jamais encontrara alguém para ouvir-lo. Seu desabafo me trouxe muitas reflexões. Entretanto, achei melhor interrompê-lo, pois senti que ele ganhava, através de seu discurso, antipatia dos outros ouvintes não inclusos na conversa, além disso, a chuva estava cessando e eu terminara o café:
                - Pode me indicar uma pensão?
                - Ah, claro que sim, meu jovem... – pegou um pedaço de papel e pôs-se a anotar um endereço e um telefone – O café está pago. Não posso cobrar nada do senhor – completou rindo novamente – Me chame Balaão. Posso perguntar seu nome?
                 - L. Muito obrigado. Boa noite.
                 - Boa noite L. Volte sempre... E não deixe que este lugar destrua sua mente... Como destruiu a minha...
                  Carreguei minhas coisas e fui saindo. Balaão me chamou quando estava perto da porta:
                  - Não confie em ninguém L. Todos aqui fingem. O senhor está sozinho, sempre.
              

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