29.4.12

Delírios do subsolo I

                 Sou um homem sem caráter e sem coragem.  Há algo de errado com meus pulmões. Não funcionam muito bem. Há algo de errado comigo. Não sei ao certo o quê. Padeço de uma melancolia crônica e de uma angústia inexplicável. Me sinto sozinho. Nasci provavelmente numa noite chuvosa, sob um céu sem estrelas, de modo que meus olhos nunca se acostumaram ao excesso de luz. Quando criança era alegre, entretanto de saúde frágil. Cresci entre relações tumultuadas com a família e colegas de escola. Tinha poucos amigos. Era solitário e estudioso.
                Na juventude fiz alguns amigos fiéis, por quem sinto grande afeição. Isso não me livrou da solidão. É como se ninguém me compreedesse por inteiro. O que fiz de minha juventude? Me perguntei mais de uma vez se dei um significado a minha vida. Não obtive resposta.  Tive alguns impulsos de realização que foram suprimidos por uma falta de vontade tremenda. Procrastinava constantemente. Me sentia fraco.
                 Durante a faculdade morei num quartinho de 12 m², que permanecia escuro durante todo o dia, o qual apelidei de "meu subsolo", em homenagem ao grande Dostoiévski. Os delírios começaram logo depois, quando era observado constantemente por um vizinho, que me deixou paranóico. Comecei a viver uma rotina de medo e desespero. Sempre imaginei a vida como um livro a ser escrito. A minha estava sendo escrita e era uma história tragicômica.
                Felizmente, ela não teve um fim breve. Consegui me salvar de mim mesmo. Estava pronto para recomeçar. Enfrentei o medo que sentia e continuei a faculdade de arquitetura e urbanismo. Hoje, não entendo o porquê, mas sinto um imenso vazio. Desde sempre percebi minha vocação para escrita e atualmente isso está muito claro para mim: nasci para escrever. Tudo isso me faz perceber o erro que talvez tenha cometido, a escolha da faculdade. Só futuro poderá dizer se foi um erro ou não. Contudo, novamente pergunto, o que fiz de minha juventude?
                 Sei que sou e serei julgado sempre, então enviarei um recado aos que julgam: guardem seus martelos. Guardem seus martelos, pois o julgamento está marcado para amanhã. E amanhã estarei pronto. Deixarei que meus delírios tomem o meu teclado, para dizer tudo que se passa dentro de mim, e com isso estarei pronto. Posso ser um homem sem caráter e sem coragem, mas por mais vazio que me sinta, estou tomado por sentimentos, que já não podem ser contidos. Estarei pronto para enfrentar o destino inglório que minha existência me reserva. Que venha o futuro.
                 Estarei sempre delirando para vocês meus amigos leitores. Agradeço sinceramente a visita.

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