Loucos,
todos loucos. Mas eu não, eu não. Estou aqui nesse lugar sujo porque falam
comigo e eu respondo. Há crime nisso? Há? Não! Isso só prova minha sanidade! A
culpa não é minha por eles serem tão tagarelas.
- José,
traz água pra mim, traz leite, traz vinho.
- Cala a
boca, inútil, ratos não tomam vinho!
Por que
perder tempo falando com esses doidos? Não podem me entender. São inferiores.
Se tivessem higiene ao menos, seriam dignos de uma conversa. Falei... falei que
aqui não era lugar para mim, o doutor me ignorou, me chamou de doente e me
deixou aqui. Se eu sou doente o doutor que me cure, é o trabalho dele.
- José, tô
sujo, tô feio, tô fedido, tô triste.
- ô seu imbecil, você é assim, vai morrer
assim!
O doutor me
chamou de louco. A Madona me chamou de louco. O presidente me chamou de louco.
Tá bem, sou louco. E quem não é? E tem coisa mais absurda que a medicina, a
música, a política? E nós não somos iguais por sermos todos loucos?
- José,
acende a fogueira, tá escuro e tô com frio!
- Não tem
lenha aqui, você não trouxe! Agora não amola!
Se esses
energúmenos desgrudassem de mim, ou parassem de falar, eu seria gênio, não
doido. Seria mais doutor do que o doutor. É, eu sou gênio. Minha genialidade
não pode ficar nesse cubículo sujo com esses encostos. Quando eu sair desse
lugar vou mandar o doutor, a Madona e o presidente para um hospital, lá na
Amazônia, aí eles vão ver só...
- José,
tome seu remedinho, tome. Tá mais calminho? Você só sai do isolamento quando se
acalmar. É bom que seja logo, se não quiser ficar a vida toda nesse escuro. Já
tá aí uma semana e não sossega... Olha! Tá todo mijado! Vem, vamo andando, que
eu tenho muito o que fazer.
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